segunda-feira, 18 de maio de 2009
São Barsanúfio de Optina: a beleza do mundo criado
"Imagine uma estátua maravilhosa, feita por um grande mestre -- e subitamente, como um raio, alguém a esmaga. O que restará dela? Fragmentos. Podemos recolhê-los; podemos procurar pelo pescoço, pela porção de um braço, pelo rosto. Indicações da beleza das linhas estão preservadas nestes fragmentos separados, mas eles não produzem mais para nós a harmonia anterior, a integridade e beleza anteriores. Assim também a queda em pecado das primeiras pessoas destruiu a beleza do mundo de Deus, e restam para nós apenas fragmentos dela, pelos quais podemos julgar a respeito da beleza primordial."
São Barsanúfio de Optina
domingo, 24 de agosto de 2008
Regras para a vida cristã
Regras para a vida cristã
Padre Thomas Hopko
Há poucos anos, me foi perguntado: Padre Thomas, se o senhor pudesse resumir da forma mais curta que vida prática teria um fiel cristão, um ser humano que creia em Deus e em Cristo, como seria ela? Que tipo de máximas, ou regras, ou qualquer termo que seja, o que ela incluiria? E, em resposta àquele pedido, eu preparei uma lista do que chamo de cinqüenta e cinco máximas; cinqüenta e cinco coisas que um fiel muito simplesmente faria se realmente fosse fiel, e realmente obediente a Deus, e quisesse viver do jeito como Deus gostaria que vivêssemos. E eu gostaria agora de ler essas máximas para vocês.
1. Esteja sempre com Cristo; confie em Deus em tudo; nunca se esqueça de Deus.
2. Reze como puder; não como pensa que deve; reze como Deus inspirar-lhe a rezar; não como quiser, mas como Deus conceder; e, para um cristão, isso quer dizer: em seu coração, em seu quarto e em sua igreja.
3. Tenha uma regra de oração possível de ser mantida, que você siga por disciplina; você não pode rezar só quando sentir vontade; você deve rezar por disciplina, a certas horas do dia, quando você se lembra de Deus e diz suas orações.
4. Diga a Oração do Senhor muitas vezes ao dia. Quando estiver entrando no carro, ou no escritório, ou na sala de aula, ou antes de fazer uma refeição, quando se levantar pela manhã, quando for dormir à noite, apenas diga a Oração do Senhor, é a oração que o Senhor nos deu, a oração curta, mas contém tudo o que um ser humano precisa rezar, se Cristo foi crucificado, ressuscitado e glorificado.
5. Tenha uma oração curta que você repita constantemente quando sua mente não estiver ocupada com outras coisas. A oração curta pode simplesmente ser: "Senhor, tem piedade", "Senhor Jesus Cristo, tem piedade"... Uma pessoa pode apenas dizer "Jesus", pode dizer "Deus", mas apenas alguma oração curta que encha a mente quando ela não estiver trabalhando, para ter a lembrança de Deus em sua vida, em seu coração.
6. Faça algumas prostrações quando rezar. Ajoelhe-se, incline-se, curve-se, use seu corpo. Como Santo Efrém disse, "se teu corpo não está rezando quando rezas, não estás realmente rezando". A oração não é só uma atividade da mente e do coração, é uma atividade da pessoa toda.
7. Coma bons alimentos com moderação, e jejue nos dias de jejum. É claro que na Quaresma é um jejum integral. Mas coma bons alimentos, não o tipo de alimento que lhe possa fazer mal, e coma com moderação. E quando jejuar, jejue em segredo.
8. Pratique o silêncio, interno e externo.
9. Apenas sente-se por poucos minutos todo dia, em total silêncio, desligue todos os aparelhos, abra-se para Deus, não pense sobre nada, assista os pensamentos que vierem e entregue-os para Deus.
10. Faça atos de misericórdia em segredo. Apenas faça algumas coisas boas sobre as quais ninguém saiba.
11. Vá aos ofícios litúrgicos regularmente. Vá à igreja, fique lá de pé, escute, reze, não preste atenção nas pessoas; oh, sim, seja atento à presença delas, mas esteja lá por causa do ofício em si.
12. Vá à confissão e à Santa Comunhão regularmente. Participe da vida sacramental da Igreja.
13. Não se deixe levar por pensamentos e sentimentos intrusivos. Quando sentimentos ou pensamentos vierem sobre você, não embarque neles. Se você os aceitar, eles lhe terão capturado, e você pecará, então você deve cortá-los logo de início.
14. Revele todos os seus pensamentos e sentimentos para uma pessoa confiável regularmente. Normalmente, esta pessoa seria seu padre, ou pai ou mãe espiritual, ou ancião, mas todo ser humano, todo cristão, deve ter alguém que saiba tudo sobre ele, e a quem regularmente reportemos o que está acontecendo na nossa vida.
15. Leia as Escrituras regularmente. Não as leia para brigar com os outros, nem para aparecer com citações, mas leia-as como combustível, como comida, porque se não lemos as Escrituras regularmente, morremos. Seria como tentar viver sem comer, ou dirigir um carro sem abastecê-lo.
16. Leia bons livros, um pouco de cada vez. Não os devore, não leia tudo para dizer que leu, lentamente leia livros. Às vezes, leia o mesmo livro, duas ou três vezes novamente, tentando pôr em prática o que ele diz.
17. Cultive a comunhão com os santos. Aprenda quem foram as pessoas santas na história cristã. Aprenda quem foram os que ensinaram, sofreram, morreram, que viveram uma vida cristã, e os imite. Como uma vez São João da Escada disse, "qualquer um que não imite os santos é tolo". Mas também seria tolo alguém que tentasse imitar outra pessoa nos detalhes da sua vida. Não podemos fazer isso, mas devemos aprender com as pessoas santas.
18. Seja uma pessoa comum, seja alguém da raça humana. Nunca diga: "Deus, eu Te agradeço porque não sou como as outras pessoas". Tente ser como os outros tanto quanto puder. Seja comum. Como o escritor russo Tchekov disse, "tudo o que é fora do comum é do diabo".
19. Seja educado com todos, acima de tudo com os membros da sua própria família. Às vezes sentimos que podemos ser rudes com os membros da nossa própria família, mas legais com as pessoas de fora; não, devemos começar com gentileza para aqueles mais próximos de nós, primeiro.
20. Mantenha a limpeza e a ordem na sua casa. Deus não vive em bagunça, ou imundície, ou sujeira, ou... Sim, não temos de ser fanáticos quanto a ter tudo minuciosamente limpo, mas temos de ter algum tipo de ordem, ao menos em algumas partes da nossa casa, onde vivemos, comemos, e especialmente onde rezamos.
21. Tenha um passatempo saudável e proveitoso. Tenha algo em que exercite seu cérebro apenas pela pura alegria de fazer isso.
22. Exercite-se regularmente. Você tem que se mexer.
23. Viva cada dia e mesmo cada parte do dia de cada vez. Não fique no passado e não fique no amanhã. São Benedito disse: "faça o que estiver fazendo, esteja presente onde estiver". O que Deus quer que eu faça exatamente agora? Não mais tarde, à noite, amanhã de manhã, nem ontem, mas agora mesmo.
24. Seja totalmente honesto, antes de tudo consigo mesmo. O maior pecado é a mentira, e a maior mentira é a mentira sobre Deus, e a mentira sobre si e Deus. Seja totalmente honesto.
25. Seja fiel em pequenas coisas. Jesus disse: "Aquele que é fiel no pouco, herda muito e lhe é acrescentado muito, e aquele que não é fiel no pouco, perde o pouco que tem". E no Evangelho de São Lucas, o Senhor inclusive disse: "Perde o pouco que pensa ter". Fidelidade em coisas pequenas e comuns.
26. Faça seu trabalho, e então o esqueça. Não o carregue por aí consigo. Seja totalmente atento ao que estiver fazendo, mas não o carregue em sua mente, tenha a mente concentrada no que estiver fazendo no momento presente.
27. Faça as coisas mais difíceis e dolorosas primeiro. Tendemos a fazer as coisas mais fáceis, aquelas de que gostamos, e adiar as de que não gostamos; devíamos tentar inverter isso, e fazer as coisas mais difíceis e chatas primeiro.
28. Encare a realidade, não viva na fantasia. Como diz um ditado russo, "Deus está em todo lugar, exceto na imaginação e na fantasia". Encare as realidades da sua vida.
29. Seja grato, seja grato por tudo.
30. Seja alegre, aja alegremente, mesmo que você não se sinta assim, especialmente na presença dos outros.
31. Seja simples, escondido, quieto, pequeno. Os Santos Padres dizem: "Se você quer ser conhecido por Deus, não busque ser conhecido pelas pessoas". E novamente, é simplicidade, escondimento, quietude, pequenez.
32. Nunca chame a atenção para si mesmo. Nunca, conscientemente, chame a atenção para si. Onde quer que esteja, faça o que as outras pessoas fazem, e isso é especialmente importante na igreja. Quando for à igreja, faça o que as pessoas estiverem fazendo lá. É o que Santo Ambrósio disse a Santa Mônica, a mãe de Santo Agostinho, quando ela perguntou: "O que eu devo fazer quando for a Roma?", ele disse: "Quando estiver em Roma, faça como os romanos fazem, jejue como os romanos jejuam, fique de pé como os romanos ficam, cante como os romanos cantam".
33. Escute quando as pessoas falam com você. Ser atento aos outros é um dos maiores dons. Mantenha a mente desperta e preste atenção quando as pessoas falarem com você.
34. Seja desperto e atento. Esteja completamente presente onde estiver. Despertar, vigilância, atenção.
35. Pense e fale sobre as coisas não mais que o necessário. Devíamos falar somente quando for necessário falar. Na verdade, a Escritura diz que devíamos falar somente quando nos falarem. Os Padres dizem: "Freqüentemente nos arrependemos da conversa ociosa, mas muito raramente temos de nos arrepender por manter o silêncio". Às vezes o fazemos, porque temos de falar. Mas devíamos falar e pensar sobre as coisas não mais do que o absolutamente necessário.
36. Quando falarmos, falemos simplesmente, claramente, firmemente e diretamente. Nada supérfluo, nada de acrescentar enfeites, novamente a simplicidade é a regra.
37. Fuja da imaginação, da fantasia, da análise, de fazer idéia das coisas. De uma vez por todas, temos que parar de tentar fazer uma idéia das coisas. Deus pode iluminar nossas mentes e nos dar uma introspecção na natureza das coisas, mas não podemos fazer uma idéia delas, não temos o preparo mental para fazer isso, e devíamos parar de tentar.
38. Fuja de coisas carnais, sexuais, à sua primeira aparição. Não podemos dialogar com a luxúria, a pornia, a imoralidade da carne, ela sempre vence, sempre tem os argumentos do seu lado, fuja delas ao primeiro surgimento.
39. Não reclame, resmungue, murmure ou choramingue. Reclamar, pensar, olhar para as faltas dos outros, trabalhamos durante a Quaresma e toda a nossa vida para parar de fazer isso. Prestemos atenção a nós mesmos.
40. Não se compare a ninguém. O Julgamento Final não será por estatística, Deus não nos compara uns com os outros, cada um de nós se posiciona de acordo com quem somos, o que recebemos, o que nos foi dado, e qual a nossa vocação.
41. Não busque ou espere elogio de ninguém, nem piedade de ninguém. Eu e meu amigo padre Paul L. costumamos chamar de PP [em inglês]: nada de elogio, nada de piedade. Sempre queremos que as pessoas pensem: "Oh, como você é maravilhoso!", ou "Nossa, como você trabalha duro" ou "Quanto você sofre!". Busquemos fugir da piedade e do elogio dos outros.
42. Não julguemos ninguém, por coisa nenhuma, não importa o que seja; isso não significa dizermos que todos estão muito bem, isso não é verdade, mas não condenemos os outros, não nos intrometamos no que os leva a agir, não lhes digamos sempre o que fazer; o que eles fazem, nós fazemos. E nós mostramos às pessoas no que nós acreditamos pelo que fazemos, mas não julguemos ninguém por nada, e, se o fizermos, então o Senhor nos julgará da mesma forma.
43. Não tente convencer ninguém de nada. De uma vez por todas, temos de parar de tentar ensinar as outras pessoas. Eu não estou tentando ensiná-lo agora, espero; só estou tentando lhe dizer o que penso ser verdade, então você pode fazer disso o que quiser. Mas não pode ser meu desejo convencê-lo e vencê-lo por argumentos. Eu posso apenas, para usar palavras escriturais, prestar testemunho. Mas não posso ter como meu objetivo converter os outros, e isso é verdade inclusive na evangelização. Não estamos lá fora para converter pessoas, estamos lá para levar a elas a alegria da vitória de Deus em Cristo, o que elas fazem disso é entre elas e Deus.
44. Não se defenda ou justifique. Os Santos dizem: "Aqueles que tentam justificar-se cometem suicídio". Não precisamos nos justificar, Deus nos vindica. Não precisamos nos defender, Deus é nosso defensor.
45. Seja definido e constrangido por Deus somente, não por pessoas. Não deixemos ninguém definir nossa vida: Deus define nossa vida. E mesmo as pessoas mais próximas não deviam estar definindo nossa vida, nossos pais, nossos esposos, não, somente Deus está definindo quem nós somos, e somos comprometidos somente à Sua definição.
46. Aceite críticas com gratidão, mas ponha-as em prática cuidadosamente. Não somos obrigados a pôr em prática toda crítica que nos é feita, às vezes a crítica é falsa, mas certamente devemos dar-lhe as boas vindas, ser gratos por ela, testá-la, e São João Crisóstomo disse: "Mesmo se formos acusados de algo e pensarmos que não é verdade, devíamos aceitar a crítica como verdadeira e pô-la em prática, então nunca erraremos, porque então, se nosso acusador estiver certo, teremos nos arrependido e agradado a ele; se não estiver certo, sentirá vergonha".
47. Dê conselho aos outros somente quando lhe for pedido ou quando for seu dever fazer isso. Isto é muito importante. Nós não saímos por aí dando avisos e conselhos de graça. Se as pessoas nos pedem, respondemos. Eu fui requisitado: "Padre Tom, diga algumas coisas na Ancient Faith Radio" e eu disse: "Ok. Porque você me pediu". Então, quando nos é perguntado, podemos responder, se é nosso dever, se é nosso trabalho, como pais, ou padres, ou supervisores de uma operação, ou professores, então devemos fazer isso, é o nosso trabalho. Mas nunca damos conselho ou aviso, a não ser que isso nos seja pedido, ou a não ser que seja nosso dever fazê-lo.
48. Não faça nada por ninguém que a pessoa possa e deva fazer por si mesma. Não é caridade nossa fazer coisas pelos outros que eles deviam estar fazendo por si mesmos. Nós lhes roubamos a vida quando fazemos isso. Então devíamos ajudar as pessoas a fazer o que têm de fazer por si, e não fazê-lo por elas. Agora, está cheio de pessoas que não podem fazer por si mesmas o que precisam fazer, então as ajudamos, mas não devíamos estar ajudando pessoas a fazer coisas que elas deviam estar fazendo por si mesmas.
49. Tenha uma lista diária de atividades, evitando o capricho e a extravagância. Novamente os Santos Padres nos ensinam que a excentricidade, a extravagância, a idiossincrasia, é a causa de toda a nossa queda; temos de ser disciplinados, temos de ter uma regra para nós mesmos e tentar segui-la. É claro que a regra não é algum tipo de lei de ferro, no sentido em que é feita para ser modificada e quebrada, mas temos de tê-la, temos de tê-la. A cada noite, quando formos dormir, devíamos dizer a nós mesmos como o próximo dia devia parecer, e então tentar manter essa regra. Coisas acontecerão, mas devíamos tentar manter a regra.
50. Seja misericordioso consigo mesmo, e com os outros. É claro que devemos ser misericordiosos com os outros, mas devemos ser misericordiosos conosco mesmos também. Não podemos nos julgar mais asperamente que Deus o faz. E o pior pecado é o desespero. Devíamos estar vivendo pela misericórdia de Deus todo o tempo, tomando responsabilidade por nossa vida, mas não nos censurando severamente, ou nos atacando, Deus não quer isso, não há mérito nisso. Arrependimento é o que Deus quer, não remorso ou algum tipo de auto-flagelação.
51. Não tenha expectativas além da de ser ferozmente tentado até seu último suspiro. Santo Antônio disse: "Uma pessoa verdadeiramente sábia conhece a diferença entre certo e errado, bem e mal, verdadeiro e falso, e se prende ferozmente ao que é bom, verdadeiro e belo, mas espera totalmente ser testada, provada e tentada até seu último suspiro". Ele disse que sem ser tentado, ninguém pode entrar no Reino de Deus. Sem tentação, não há salvação. A vida inteira do homem na terra é uma provação, de acordo com a Escritura, Jó disse isso. Então, estamos sendo provados a todo momento, devíamos esperar isso, mas nunca devíamos esperar que a provação fosse embora. Não pedimos a Deus que leve embora nossas cruzes, pedimos a Ele o poder de carregá-las. Deus não tenta ninguém, mas, na Providência de Deus, somos testados todo o tempo, para que nossa salvação possa ser nossa, e possamos ser vitoriosos pela vitória de Cristo.
52. Concentre-se exclusivamente em Deus e na luz; nunca se concentre na escuridão, na tentação e no pecado. Este é um ensinamento clássico. Encha-se de boas coisas, não seja hipnotizado por coisas sombrias, não medite em coisas malignas, medite em coisas boas, e Deus cuidará do resto.
53. Suporte a sua provação e suas próprias faltas e pecados pacificamente, serenamente, sob a misericórdia de Deus. Isto é muito importante. São Serafim de Sarov disse: "Ter o Espírito Santo é ver nossa própria baixeza pacificamente, porque sabemos que a misericórdia de Deus é maior que nossa própria miséria". Santa Teresa de Lisieux, uma santa católica romana que morreu aos vinte e quatro anos, escreveu para um amigo: "se você estiver disposto a suportar a provação da sua própria miséria serenamente, então você certamente será a dulcíssima morada de Jesus". Temos de agüentar nossas próprias faltas serenamente. São Paulo disse: "Onde o pecado está abundante, a Graça está superabundante" e não podemos deixar o diabo regozijar duas vezes. Evágrio diz: "Quando caímos, os demônios rejubilam, quando ficamos caídos, os demônios continuam rejubilando, e nada envergonha mais os demônios do que, tendo caído, nos levantarmos de novo". Então, devemos agüentar pacificamente, calmamente, nossas próprias maldades, nossas próprias faltas: esperá-las, não fazer com que aconteçam, mas esperá-las, nós não somos Deus.
54. Quando cairmos, levantemo-nos imediatamente e comecemos de novo; tanto quanto cairmos, nos levantemos novamente; e nós cairemos. Diz na Escritura que o homem sábio cai sete vezes por dia, isso é muito, mas ele se levanta de novo. O tolo não se levanta de novo e o tolo nem mesmo sabe que caiu. A pessoa sábia sabe quando cai, mas se levanta de novo. De fato, a tradição diz: "pertence só a Deus nunca cair, pertence aos demônios cair e não levantar de novo, mas pertence a seres humanos, certamente a cristãos, cair e levantar de novo, cair e levantar de novo". Um Padre do Deserto até mesmo descreveu a vida humana, de acordo com a fé cristã, desse jeito, quando foi perguntado por um pagão: "o que significa ser cristão?", e ele disse: "um cristão é uma pessoa que cai e se levanta de novo, que cai e se levanta de novo, que cai e é levantada de novo pela graça de Deus, para começar de novo, e podemos começar de novo a todo momento".
55. Peça ajuda quando precisar, sem medo e sem vergonha. Nós todos precisamos de ajuda. Um ditado russo é: "A única coisa que você pode fazer sozinho é perecer, é ir para o inferno". Se somos salvos, somos salvos com os outros. Então, devemos ter conselho, devemos ter amigos, devemos ficar com os outros. Às vezes, precisamos de ajuda específica, como se estamos presos a drogas, álcool ou sexo, então temos de ir e pedir essa ajuda específica, como iríamos ao médico se estivéssemos doentes. Às vezes, não sabemos o que fazer, então precisamos de ajuda, temos de ir a uma pessoa mais velha, mais experiente, para nos dar algum guiamento, mas não devíamos jamais sentir vergonha ou medo de pedir ajuda, é apenas uma parte normal da vida humana. E o tempo da Quaresma, como uma pequena mini-vida, é um tempo quando aproveitamos toda a ajuda que podemos ter, somos ajudados pelos escritores das Escrituras, pelos santos, pelos ofícios, pelos sacramentos, recebemos a ajuda que Deus providencia em todos os vários modos como Ele a providencia, pelo bem da nossa vida, nossa cura e nossa salvação.
sábado, 23 de fevereiro de 2008
Guiamento pastoral
Os pensamentos de saudade de Maggie são naturais -- mas este é
o lado que pertence à terra. Sua alma está com Deus, e a provação pela qual
vocês passaram com ela foi a visita de Deus a vocês, e a prova de que em tudo o
que tem estado acontecendo há algo mais profundo do que a lógica e os
sentimentos humanos podem sondar.Algumas pessoas parecem ter um caminho "fácil" e descomplicado
na vida -- ou assim parece de fora; enquanto para outros, como você, tudo parece
complicado e difícil. Não deixe que isso a incomode. Na verdade, do ponto de
vista espiritual, aqueles que realmente têm tempos "fáceis" estão provavelmente
em perigo! -- precisamente porque sem o elemento de sofrer o que quer
que Deus envie, não há proveito ou avanço espiritual. Deus conhece cada um de
nós melhor do que nos conhecemos a nós mesmos, e Ele envia o que é necessário
para nós, o que quer que possamos pensar!O túmulo da Maggie é uma fonte de grande alegria para nós. Na
terça-feira após a semana de Páscoa, quando os mortos são comemorados novamente
pela primeira vez, nós fomos lá e cantamos, mesclando os hinos fúnebres com
hinos pascais, então quebrando e comendo ovos, símbolos da Ressurreição, sobre o
túmulo. Verdadeiramente, os vivos e os mortos são um em Cristo, e é somente
nossa cegueira que nos faz às vezes esquecer isso!
Sobre suas provações: a maioria delas são partes naturais da
vida, e Deus permite que muitas delas se acumulem porque você é capaz de
carregá-las. A dormência, que vem principalmente da exposição à política num
lugar sagrado, ao qual ela não pertence, passará. Você deve aprender a sofrer e
a suportar -- mas não veja isso como algo "infindável e deprimente", aqui você
está errado: Deus envia muitas consolações, e você as conhecerá de novo. Você
deve aprender a encontrar alegria em meio a crescentes doses de tristeza; assim
você pode salvar sua alma e ajudar os outros.
Pe. Serafim tinha coisas similares a dizer para um jovem que estavaSobre você pessoalmente, é claro, eu não posso dar nenhuma resposta definitiva.
Entretanto, eu sei que na vida espiritual é muitas vezes precisamente em
aparentemente "impossíveis" condições que alguém realmente começa a crescer;
então alguém tem de ficar mais sensível, pensar menos em conseguir sua
própria vontade e perguntar qual é a vontade de Deus, aprender a ver um
pouco mais fundo na realidade ao seu redor -- e tudo isso através do sofrimento,
tanto os seus próprios quanto aqueles dos outros.
experimentando solidão no mundo enquanto ao mesmo tempo ansiava por servir a
Deus como padre:
Pe. Dimitry Dudko tem uma resposta para o novo convertido
levando uma vida solitária no mundo (acho que lemos isto na trapeza** após você
sair): entre tanto quanto possível no espírito e modo de pensamento e
vida da Igreja. (...) Sua solidão, embora difícil de suportar, é boa,
porque só do sofrimento vem o crescimento espiritual; isso passará à
medida que você entrar mais e mais no espírito da Igreja por continuamente
se nutrir dele. A leitura diária, mesmo se for pouca, é muito importante
nessa luta.Sobre o sacerdócio: entesoure a idéia por agora em seu
coração. Quanto mais experiência você tiver na vida, e no sofrimento (eu sei que
você não gosta dessa palavra -- mas mesmo que você não saia e procure
sofrimento, ao menos esteja preparado para aceitar qual pouco Deus lhe conceda,
e o aceite alegremente) -- melhor preparado ficará para o sacerdócio.
Não fique deprimido por haver pessoas se levantando contra
você em sua paróquia. Se todos o amassem, então eu diria que há algum problema
aí, porque você estaria provavelmente satisfazendo demais as pessoas ao dar
conselho pastoral. Cristo foi sempre odiado, e foi crucificado. Por que
deveríamos esperar que todos subitamente nos amassem, se estamos seguindo os
passos de Cristo? Apenas seja cuidadoso para que sua consciência pastoral esteja
pura, e não tema o ódio dos outros, mas o ódio dentro de você mesmo.
D. está certo -- não seja muito tomado por "fantasias". Mas
nem as reprima inteiramente, também -- sem sonhos, não podemos viver! Possa Deus conceder a seu Reuben a graça de ser batizado e encontrar seu lugar para ser um cristão ortodoxo frutífero. (...)Deus conceda a você continuar com tanto frescor perante a
ortodoxia quanto você sentiu ao ler as Homilias de São Simeão! Esteja ciente,
entretanto, de que isso será possível apenas com sofrimentos; tudo o que você
precisa para aprofundar sua fé virá com sofrimento -- se você aceitá-lo com
humildade e submissão à vontade de Deus. Não é muito difícil ficar "exaltado"
pela riqueza e profundidade da nossa fé ortodoxa; mas temperar essa exaltação
com humildade e sobriedade (que vem pela correta aceitação de sofrimentos) não é
uma coisa fácil. Em tantas das nossas pessoas ortodoxas de hoje (especialmente
convertidos) pode-se ver uma coisa assustadora: muita conversa sobre as
exaltadas verdades e experiências da verdadeira ortodoxia, mas misturada com
orgulho e um senso da sua própria importância por estar "por dentro" de
algo que muitas pessoas não vêem (daí vem também o criticismo contra o qual você
já foi advertido). Deus mantenha seu coração suave e cheio de amor por Cristo e
por seus semelhantes. Se você puder ter um pai espiritual ao qual possa
confidenciar os sentimentos do seu coração, e possa confiar em seu julgamento,
tudo isso será mais fácil para você -- mas se for agradável a Deus que você
tenha esse pai espiritual, isso virá "naturalmente", como todas as coisas na
vida espiritual -- com tempo, paciência, sofrimento, e conhecendo melhor a si
mesmo.
Se ela for aliviada do "problema" dos seus filhos, sua perdição estará quase garantida. (...) Ela está cometendo um mau erro ao pensar que uma vez que esteja "livre" dos seus filhos ela poderá então começar a pensar sobre um convento e real "vida espiritual" -- porque, se não reconhecemos que nossa luta espiritual começa agora mesmo, com o que quer que Deus nos tenha dado (e ainda mais se nós mesmos entramos numa situação difícil!), não começaremos a "vida espiritual" mais tarde, também. E então, se apenas ela soubesse, sua salvação poderia estar em seu sofrimento pela criação dos seus próprios filhos; mas se ela não sofrer isso, então, mais tarde, quando ela pensar estar começando a real "vida espiritual", ela descobrirá não ter absolutamente nada, e a "vida espiritual" que começa após sermos livres de problemas presentes é apenas uma abstração. Eu penso que tudo isso é verdade -- mas o benefício espiritual de "sofrer" vem apenas se alguém voluntariamente o aceita.
Nós percebemos que criar seus [filhos] é muito difícil para
você. Mas esta é a cruz que Deus lhe deu, e eu devo lhe dizer francamente que
você dificilmente poderá receber sua salvação de qualquer outro jeito que não
seja tentando seu melhor para criá-los bem. A vida espiritual começa quando as
coisas parecem absolutamente "sem esperança" -- é quando se aprende a voltar
para Deus e não para nossos próprios débeis esforços e idéias.
Não se preocupe demais com o quanto você é espiritualmente
pobre -- Deus vê isso, mas para você é esperado confiar em Deus e orar a Ele o
melhor que puder, nunca cair em desespero, e lutar de acordo com sua força. Se
você alguma vez começar a pensar que está espiritualmente "afortunado" -- então
pode saber com certeza que não está! A verdadeira vida espiritual, mesmo no
nível mais elementar, é sempre acompanhada por sofrimento e dificuldades.
Portanto, você devia rejubilar em todas as suas dificuldades e tristezas.
Nós entendemos muito bem sua situação, como você a descreve em
sua carta. É claro, o que você diz é "correto" até onde vai. Mas você está se
permitindo cometer um erro básico: está fazendo de si mesmo o juiz do
seu próprio estado espiritual. No seu presente estado de conhecimento e
experiência, você não é capaz de ver se precisa de uma aspirina ou de
uma operação -- então tente se humilhar um pouco na medida de ver que
você não sabe o que é melhor para si! Mas então qual é a resposta? Encontrar um
lugar mais rígido? Não agora -- se você fizer isso, provavelmente se
arrependerá; é muito duvidoso que isso vá lhe dar o crescimento espiritual que
você precisa e está buscando. Nem "rigidez", nem "liberdade" é uma garantia de
crescimento espiritual. Algumas pessoas sob "liberdade" se tornam
espiritualmente frouxas e nunca crescem; mas também temos visto aqueles
treinados sob relativa "rigidez" que também não fizeram nenhum crescimento, mas
pelo contrário pensaram que tinham crescido, enquanto na verdade caíam
nas moléstias da vanglória e do orgulho, acreditando que seu instrutor estivesse
tomando conta desses problemas para eles. Sob ambas as formas de vida,
deve-se andar em temor de Deus e com discernimento.Sua resposta -- se posso ser tão ousado para lhe
dizer -- é ser paciente, suportando com boa esperança todas as tentações que vêm
no seu caminho, e refreando seu julgamento sobre se você precisa de uma aspirina
ou uma operação -- até que você tenha adquirido mais conhecimento e
experiência -- que é por que você foi para Jordanville, em primeiro lugar.
Sua opinião será muito mais sólida após muitos anos mais de seminário e
experiência numa comunidade ortodoxa. Você é muito jovem na ortodoxia para ficar
avaliando seu crescimento espiritual -- este é na verdade um sinal do seu
orgulho. Seja paciente, suporte, observe, aprenda -- e quando o tempo
chegar, virão modos de testar seu real crescimento espiritual.Numa palavra, a tentação de deixar Jordanville, após ter se
comprometido com o seminário e a vida de noviço, parece vir do diabo pelo
"lado direito" -- para te empurrar do caminho que lhe dará o melhor
progresso, por uma razão aparentemente boa e plausível. Você lembra de como o
Santo de hoje, Cirilo do Lago Branco, pensou que seria mais beneficiado
espiritualmente sentando em sua quieta cela do que trabalhando na barulhenta
cozinha? E que acabou não sendo absolutamente como seu julgamento inexperiente
tinha pensado que seria? Tome isso como seu exemplo e advertência quando esses
pensamentos vierem a você pelo "lado direito". A "cozinha barulhenta" pode lhe
dar muita experiência espiritual valiosa, mesmo que não pareça por enquanto.O sentimento de vacuidade, vaidade mundana, desamparo contra
tentações -- passará; mas você devia aceitar tudo isso agora como sua cruz,
lutando de acordo com sua força, e não ficando tão orgulhoso de pensar que devia
estar acima dele.
Eu espero que você seja capaz de se forçar a terminar seu curso -- você ficará
surpreso como mais tarde algumas dessas coisas que agora parecem tão inúteis
acabarão tendo um uso, no fim das contas (mesmo Kant e Skinner!).
A vida universitária sem dúvida dará a você muitas tentações.
Mas lembre-se que o aprendizado em si mesmo é útil e pode ser usado mais tarde
de um jeito cristão. Tente evitar as atividades ociosas e tentações que você
encontrará, que não servem a nenhum propósito útil, de forma que, mesmo numa
atmosfera irreligiosa, você possa "redimir o tempo", como o Apóstolo Paulo diz,
e fazer máximo uso das oportunidades que lhe são dadas para aprender.
Talvez você não saiba "o que vem depois"? (...) Tenha a
graduação primeiro, e então confie em Deus para lhe descobrir o caminho. A
situação política-econômica nos E. U., como evidentemente em todo lugar do
Ocidente, está rapidamente deteriorando. Pior, a situação da igreja se torna
muito má (sua situação não é única!). Em San Francisco, subitamente algumas
paróquias estão ficando vazias, e os velhos padres morrem e não há
jovens para substituí-los; e é duvidoso se mais do que uns poucos vêem a causa:
que a ortodoxia tem sido por muito tempo "tomada como garantida", e ela não se preserva "automaticamente"! Mas tudo isso somente nos prepara
para os tempos das catacumbas, quando nossas oportunidades são talvez maiores
que nunca.Não podemos ver o futuro -- mas saiba isto: que, se você ama a
Deus e a Sua Igreja Ortodoxa e a seus semelhantes -- Deus pode e vai usá-lo.Apenas fique em contato com semelhantes lutadores ortodoxos
(eles existem).
Sobre o combate carnal quando trabalhos corporais são
impossíveis ou difíceis, Santo Abba Barsanúfio diz: "Fuja rapidamente para a
Oração de Jesus, e você encontrará repouso"; "reze incessantemente, dizendo:
Senhor Jesus Cristo, livra-me de vergonhosas paixões"***.
Não tenha medo de confessar os pecados carnais. Você pensa que
é tão santo? Deus lhe permite cair para humilhá-lo. Levante-se e ande em temor e
tremor. Lute contra elas, mas não se desespere, não importa o que aconteça. A
força na firmeza ortodoxa vem muito gradualmente; o que você faz todo dia ajuda
a construí-la; e, se você cair, humildade e auto-consciência
a constróem.
Sua batalha com a "fornicação demoníaca" não é tão incomum
como você pode pensar. Essa paixão se tornou muito forte em nossos tempos
malignos -- o ar está saturado com ela; e os demônios tomam vantagem disso para
atacar você num ponto muito vulnerável. Toda batalha com as paixões também
envolve demônios, que dão "sugestões" quase imperceptíveis para disparar as
paixões e de qualquer forma cooperam para despertá-las. Mas a imaginação humana
também entra aqui, e é imprudente distinguir exatamente onde nossas paixões e
imaginação encerram e a atividade demoníaca começa -- você devia apenas
continuar lutando.Que os demônios ataquem você em sonhos é um sinal de progresso
-- isso significa que eles estão recuando, vendo que você está resistindo ao
pecado consciente. Deus permite isso para que você continue lutando. Muitas
vezes, este demônio vai embora completamente por um tempo, e alguém pode ter um falso senso de segurança de que está "acima" desta paixão; mas todos os Santos
Padres advertem que não se pode considerar que esta paixão foi conquistada antes
do túmulo. Continue sua luta e tome refúgio na humildade, vendo de que pecados
básicos você é capaz e como está perdido sem a constante ajuda de Deus, Que o
chama para uma vida acima desses pecados.
Meu filho, você está se enganando e indo pelo caminho da
perdição. Eu não serei falsamente "gentil" de esconder este fato de você. Você
fala de ajudar os outros, mas você os está levando para a perdição. (...) Você
sabe que ao "pregar a Fé" para ... e então pecar com ele, você o inoculou contra Cristo? E agora você pensa que salvará ... ?Acorde, meu filho, se ainda pode. Você detectou uma
"distância" entre nós que não entende. Esta é a distância que você mesmo
colocou, ao escolher seu próprio caminho, e rejeitar todo mundo que tentou
guiá-lo. É a mesma "distância" que mais tarde, ou mesmo agora, você sentirá com
Vladika Nectário e com todos os verdadeiros cristãos ortodoxos, e então com a
própria Santa Ortodoxia. Você se justifica para si mesmo com o argumento de que
é de algum modo "especial". Seus problemas humanos são demais para você, e devem
ser deixados para se desenvolverem antes que possa realmente escolher Cristo.
Não, meu filho, você não é "especial" -- mil "convertidos malucos" já foram por
esse caminho, e você está se juntando a eles.Perdoe minhas palavras ásperas. Eu as falo porque realmente
amo você e não desejo que se perca. Eu não cesso de rezar por meu filho errante.
(...) Eu alegremente sofrerei com você e por você, mas isso não lhe fará bem a
não ser que você abandone seu próprio entendimento de como viver.Neste último fim-de-semana, fomos visitados por um zeloso
padre da Costa Leste. Que profundo sentimento de companheirismo entre nós,
baseado no comprometimento e zelo e profundo sofrimento -- a tudo o que você
permanecerá um estranho enquanto confiar em si mesmo.Possa Deus salvá-lo da perdição.Eu estou rezando pelo obscurecido ... . Não o engane mais.
A amplamente difundida confusão sobre todo este assunto parece
vir de uma falha em entender o ensinamento ortodoxo real sobre a sexualidade --
ela não é "santa", mas nem é maligna. As Vidas dos Santos, sozinhas, sem nenhum
tratado patrístico, deviam nos ensinar a posição ortodoxa: que a união sexual,
enquanto é abençoada pela Igreja e cumpre um mandamento do Criador, é ainda uma
parte da natureza animal do homem e está, na humanidade caída, inevitavelmente vinculada ao pecado. Isto não nos devia chocar, se pararmos para pensar
que uma coisa tão necessária como comer está também quase
invariavelmente vinculada ao pecado -- quem de nós é perfeitamente continente na
comida e na bebida, o completo senhor do seu ventre? O pecado não é uma
categoria de atos específicos, tais que, se nos privamos deles, ficamos "sem
pecado" -- mas é antes um tipo de rede que nos enlaça, e da qual
nunca podemos realmente ficar livres nesta vida. Quanto mais profundamente
alguém vive a ortodoxia, mais pecaminoso sente ser -- porque vê mais
claramente esta rede com a qual sua vida está entrelaçada; a pessoa, assim, que
comete menos pecados sente ser mais pecadora do que quem comete mais!Os Padres afirmam especificamente, aliás, que Adão e Eva não
tiveram união sexual (nem, é claro, comeram carne) no Paraíso. Eu acredito que
Tomás de Aquino diz que eles tiveram -- o que concordaria com a doutrina
católica romana da natureza humana.Tudo isso devia um dia ser escrito e impresso, com abundantes
ilustrações dos Santos Padres e das Vidas dos Santos -- junto com toda a
questão da sexualidade -- aborto, pecados naturais e não-naturais,
pornografia, homossexualidade, etc. Com fontes Escriturais e Patrísticas, isso
poderia ser feito cuidadosamente e sem ofensividade, mas claramente. (...)É o bastante sobre este assunto; você está correto, aliás, em
que é melhor essas coisas serem impressas por leigos do que por monges!
Eu recebi e li sua carta com alguma tristeza (Pe. Germano está
presentemente numa peregrinação de um mês ao Monte Athos e não estará de volta
por cerca de uma semana). (...)Nós não conhecemos Pe. ... bem. Começamos uma correspondência
com ele, dez ou onze anos atrás, através de um amigo nosso que o encontrou na
Califórnia meridional. (...) Eu li suas cartas com grande simpatia, vendo-o como
alguém quebrado e humilhado pela sua própria aproximação ultracrítica nos anos
anteriores, bem como pelas facções e ciúmes do movimento vétero-calendarista
grego. Pe. Germano, entretanto (que é mais afiado psicologicamente) notou que as
cartas dele eram humildes demais e complicadas demais, e que ele
provavelmente não era muito diferente das outras facções gregas sobre as quais
já sabíamos.Bem, tudo isso é a base de qual seja o conhecimento que temos
do Pe. ... , e não é o suficiente para explicar o que aconteceu entre vocês (eu
imagino que Pe. Germano não achará isso muito surpreendente, porém).
Aparentemente, ele tem alguma profunda insegurança pessoal sobre alguma coisa, e
a situação da igreja realça isso. Ele ficar tão irritado por acusações
obviamente falsas deve ser um mecanismo psicológico para se defender contra o
ataque mais profundo que ele sente contra seu "ponto fraco", qualquer que seja.
Eu mesmo tenho um sentimento de que isso tudo está de algum modo ligado ao
grande problema da nossa ortodoxia dos dias presentes (onde ela tenta ser séria
e fiel à tradição): demasiado cálculo e coração não suficiente. Nós vimos isso
em Pe. ... , em Dr. ... (especialmente quando ele formou seu próprio cisma sobre
a pintura iconográfica de Deus Pai), nos padres que seguem a "linha de Boston",
em numerosos convertidos; bom, por que olhar mais longe -- eu vejo isso em mim
mesmo, é parte do ar que respiramos em nossos tempos "esclarecidos", orientados
pela mente. Os padres russos parecem ser os mais livres disso, e eu penso que há
esperança para nós, convertidos, também, se sofrermos o bastante.Não acho que você precise duvidar da genuinidade do bem que
recebeu do Pe. ... ; é só que agora você vê também o lado fraco dele. Deus sabe
se seu relacionamento com ele algum dia será algo como o que foi. Talvez, de
fato, você tenha sido "usado", quando o cálculo dele superou seu bom coração;
mas talvez este próprio cálculo seja apenas o escravo das suas emoções mais
profundas.Bem, estamos todos falhados. Talvez esse seja o grande fato
espiritual dos nossos tempos -- que todos os professores estão falhados, não há
nenhum grande ancião sobrando, mas apenas mestres espirituais de "meio período",
que passam parte do seu tempo desfazendo suas boas obras. Devíamos ser gratos
pelo bom ensinamento que podemos ganhar, mas sóbrios e cautelosos.A lição para você é provavelmente: sobriedade. Sim, você devia
confiar em seu coração (estou seguro de que Pe. Germano concordará comigo) --
que coisa melhor nós temos? Certamente, não a nossa mente calculadora. Eu não
acho que você será prejudicado pela confiança que deu ao Pe. ... ; o bem que ele
fez ficará com você, se você ficar humilde e sóbrio (se você deu a ele excessiva
confiança, no sentido de um guru, então está sofrendo a punição por isso agora;
mas isso passará). Mas sua própria consciência e coração têm de falar;
obediência totalmente cega simplesmente não é possível, especialmente em nossos
tempos. Em seu futuro relacionamento com ele (se ele for permiti-lo), você
apenas terá que continuar confiando em seu coração, eu acho. O constante aviso
do Bispo Inácio Brianchaninov para os cristãos dos últimos tempos é: não há
anciões restantes, cheque todo ensinamento pelo Evangelho (é claro, não no
sentido de "calcular" para ver onde o professor está errado -- mas naturalmente,
com o coração e a consciência). (...)Nós mesmos tentamos manter a paz com todos, mas não ocultamos
nossas opiniões quando vemos alguém tentando forçar estreitas opiniões pessoais
na Igreja. (...) Depois de tudo, partidos vêm e vão, mas é Deus Quem governa Sua
Igreja. No meio tempo, rejubilamos quando quer que vejamos alguém tentando ser
fervoroso na ortodoxia e cuidando de suas próprias coisas; é por isso que o
"ataque político" de Pe. ... é tão triste. (...)Me desculpe por eu não ter nenhum conselho real para você em
sua dor, a não ser apenas uma palavra: sim, confie em seu coração e consciência,
e não faça nada para violá-los. Se Pe. ... deixará que volte ao seu favor sem
exigir política de você, bem e bom; você já estará mais sábio e mais sóbrio.
Provavelmente, você terá de esperar um pouco antes de tentar contactá-lo
novamente, se então pensar que deve. Se ele não mudar de idéia, então
aparentemente você terá de deixá-lo com seus próprios problemas, que
evidentemente são grandes. Possa Deus ter misericórdia de todos nós! Reze por
ele. Uma comunidade monástica, por causa de seu caráter intimamente entrelaçado,
pode às vezes ser um lugar tenso, e o diabo a ataca mais poderosamente que
outros lugares.Enquanto isso, não desista da vida espiritual só porque você
não tem um guia imediato! Os Padres ainda falam para nós através dos seus
escritos (você leu Combate Não-visto recentemente?), e a própria vida é
um mestre se tentamos viver humildemente e sobriamente, e de vez em quando você
pode ganhar uma boa palavra de conselho de algum lugar. Entesoure tudo o que for
bom (é bom manter um diário disso) e não sofra pelo que não tem!
Como você se prepara para o batismo, eu lhe daria muitas
palavras de conselho:1. Não se permita ficar preso ao aspecto exterior da
ortodoxia -- sejam os esplêndidos serviços da Igreja (a "alta igreja" à qual foi
atraído quando criança), a disciplina exterior (jejuns, prostrações, etc.), ser
"correto" de acordo com os cânones, etc. Todas estas coisas são boas e
auxiliadoras, mas se alguém superenfatizá-las, entrará em transtornos e
provações. Você está vindo para a ortodoxia para receber Cristo, e isso
você nunca devia esquecer.2. Não tenha uma atitude hipercrítica. Com isso eu não quero
dizer abandonar seu intelecto e discernimento, mas antes colocá-los em
obediência a um coração crente ("coração" significando não mero
"sentimento", mas algo muito mais profundo -- o órgão que conhece Deus). Alguns
convertidos, oh, pensam que são muito "espertos", e usam a ortodoxia como um
meio de se sentirem superiores aos não-ortodoxos, e às vezes até aos ortodoxos
de outras jurisdições. A teologia ortodoxa, é claro, é muito mais profunda e faz
muito melhor sentido que as teologias errôneas do Ocidente moderno -- mas nossa
básica atitude perante isso deve ser de humildade, não de orgulho. Convertidos
que se orgulham de "saber melhor" que católicos e protestantes muitas
vezes terminam "sabendo melhor" que seu próprio padre paroquial, bispo, e
finalmente os Padres e toda a Igreja!3. Lembre que sua sobrevivência como um cristão ortodoxo
dependerá muito do seu contato com a tradição viva da ortodoxia. Isso é
algo que você não encontrará em livros e não pode ser definido para você. Se sua
atitude for humilde e sem hipercriticismo, se você puser Cristo primeiro em seu
coração, e tentar levar uma vida normal, de acordo com a disciplina e a prática
ortodoxa -- você obterá esse contato. Oh, muitas jurisdições ortodoxas hoje
(...) estão perdendo esse contato, por simples mundanidade. Mas há também uma
tentação do "lado direito" que procede do mesmo hipercriticismo que acabei de
mencionar. A Igreja tradicionalista (do Velho Calendário) na Grécia hoje está em
caos por causa disso, uma jurisdição lutando e anatematizando a outra sobre
"correção canônica" e perdendo de vista da tradição toda sobre pontos
hiperdelicados. (...)Você mesmo teve bastante experiência na vida para evitar essas
tentações, que são na verdade aquelas dos jovens e inexperientes; mas é bom
mantê-las em mente.
Eu fiquei feliz de receber sua carta -- feliz, não porque você
está confusa quanto à questão que a incomoda, mas porque sua atitude revela que,
na verdade da ortodoxia para a qual você é atraída, você deseja encontrar lugar
também para uma atitude amorosa, compassiva para aqueles de fora da fé
ortodoxa.Eu firmemente acredito que é isto mesmo que a ortodoxia
ensina. (...)Eu vou expôr brevemente o que acredito ser a atitude ortodoxa
perante cristãos não-ortodoxos.1. A Ortodoxia é a Igreja fundada por Cristo para a salvação
da humanidade, e portanto devíamos guardar com nossa vida a pureza do seu
ensinamento e nossa própria fidelidade a ele. Na Igreja Ortodoxa, apenas, a
graça é dada através dos sacramentos (a maioria das outras igrejas nem mesmo
afirmam ter sacramentos em nenhum sentido sério). A Igreja Ortodoxa sozinha é o
Corpo de Cristo, e se a salvação é difícil o bastante dentro da Igreja
Ortodoxa, como muito mais difícil deve ser fora da Igreja!2. Entretanto, não é para nós definirmos o estado daqueles que
estão fora da Igreja Ortodoxa. Se Deus desejar conceder a salvação a alguns que
são cristãos do melhor jeito que conhecem, mas sem alguma vez conhecer a Igreja
Ortodoxa -- isso é com Ele, não conosco. Mas quando Ele faz isso, isso está fora
do jeito normal que Ele estabeleceu para a salvação -- que é na Igreja,
como parte do Corpo de Cristo. Eu mesmo posso aceitar a experiência de
protestantes sendo 'renascidos' em Cristo; eu encontrei pessoas que mudaram suas
vidas inteiramente por encontrar Cristo, e eu não posso negar sua experiência
apenas porque elas não são ortodoxas. Eu chamo essas pessoas de cristãos
"subjetivos" ou "iniciantes". Mas até serem unidas à Igreja Ortodoxa, elas não
podem ter a totalidade do cristianismo, elas não podem ser objetivamente cristãs, pertencendo ao Corpo de Cristo e recebendo a
graça dos sacramentos. Eu penso que é por isso que há tantas seitas entre elas
-- elas começam a vida cristã com uma genuína conversão a Cristo, mas
elas não podem continuar a vida cristã no caminho certo até serem
unidas à Igreja Ortodoxa, e daí substituírem suas próprias opiniões e
experiências subjetivas pelo ensinamento e sacramentos da Igreja.Sobre aqueles cristãos que estão fora da Igreja Ortodoxa,
portanto, eu diria: eles ainda não têm a verdade completa -- talvez ela apenas
não tenha ainda sido revelada a eles, ou talvez seja nossa a falta, por não
viver e ensinar a fé ortodoxa de um jeito que possam entender. Com essas pessoas
não podemos ser um na fé, mas não há razão por que devêssemos considerá-las como
totalmente estranhas ou iguais a pagãos (embora não devêssemos nem ser hostis a
pagãos -- eles também não viram ainda a verdade!). É verdade que muitos dos
hinos não-ortodoxos contêm um ensinamento, ou ao menos uma ênfase que está
errada -- especialmente a idéia de que quando alguém está "salvo" não precisa
fazer nada mais, porque Cristo fez tudo. Essa idéia impede as pessoas de ver a
verdade da ortodoxia, que enfatiza a idéia de lutar por sua salvação mesmo após
Cristo tê-la dado a nós, como São Paulo diz: Trabalhai por vossa própria
salvação com temor e tremor [Fil. 2, 12]. Mas quase todos os cânticos
religiosos de Natal estão todos certos, e eles são cantados por cristãos
ortodoxos na América (alguns deles, mesmo nos mosteiros mais rígidos!).A palavra "herege" (como dizemos em nosso artigo sobre o Pe.
Dimitry Dudko)**** é de fato usada muito freqüentemente hoje em dia. Ela tem
significado e função definidos, para distinguir novos ensinamentos do
ensinamento ortodoxo; mas poucos dos cristãos não-ortodoxos de hoje são
conscientemente "hereges", e realmente não faz bem chamá-los assim.No fim, eu penso, a atitude do Pe. Dimitry Dudko é a correta:
devíamos ver os não-ortodoxos como pessoas para quem a ortodoxia ainda não foi
revelada, como pessoas que são potencialmente ortodoxas (se apenas nós mesmos
déssemos a elas um melhor exemplo!). Não há razão pela qual não possamos
chamá-las de cristãs e estar em bom termo com elas, reconhecer que temos ao
menos nossa fé em Cristo em comum, e viver em paz especialmente com nossas
próprias famílias. A atitude de Santo Inocêncio com os católicos romanos na
Califórnia é um bom exemplo para nós. Uma atitude polêmica, áspera, é requerida
apenas quando os não-ortodoxos estão tentando tomar nossos rebanhos ou mudar
nosso ensinamento. (...)Quanto a preconceitos -- estes pertencem a pessoas, não à
Igreja. A ortodoxia não requer que você aceite nenhum preconceito ou opinião
sobre outras raças, nações, etc.
domingo, 13 de janeiro de 2008
O deserto no quintal
Dizem, como tenho ouvido, que é impossível atingir virtudes sem se retirar a alguma distância e fugir para dentro do deserto, e eu fiquei surpreso de que se tivessem encarregado de determinar uma localização para aquilo que é indeterminável. Pois, se a proficiência na virtude é a restauração da força da alma à sua primordial nobreza e a integração das principais virtudes para o próprio funcionamento da alma de acordo com sua natureza, então isso não vem de fora, como algo estrangeiro, mas como algo inato em nós da criação, através do que nós entramos no Reino do Céu, que está, de acordo com a palavra do Senhor, dentro de nós. Assim, o deserto é algo extra e nós podemos entrar no Reino sem isso, através do arrependimento e da manutenção dos mandamentos. Assim, é possível que o domínio de Deus possa estar presente em qualquer lugar, como o divino Davi cantou: “Bendizei ao Senhor, todas as Suas obras, em todos os lugares do Seu domínio” (Salmo 103, 22).
- Nicetas Stithatos, da Filocalia.
Embora os padres soubessem que seu ermitério na selva fosse o lugar no qual Deus pretendia que trabalhassem por sua salvação, eles não podiam claramente esperar que todo mundo que viesse a eles seguisse um caminho idêntico. Eles viam que muitas pessoas que eram inspiradas pelo ideal do deserto e as Vidas dos santos anacoretas estavam destinadas, devido a suas circunstâncias dadas por Deus, a salvar suas almas enquanto viviam no mundo.
O deserto, como Pe. Serafim uma vez definiu, é “um refúgio dos tormentos e ocupações do mundo e um lugar de intenso combate espiritual por amor do Reino celestial”. Obviamente, a vida na selva é tremendamente conducente a isso, mas o que é verdadeiramente vital é a disposição da sua alma – uma alma que se sente uma “exilada”. Essa disposição pode ser adquirida pelos cristãos em todos os tipos de arredores.
Como mencionado anteriormente, o ideal do deserto é apenas a direta continuação histórica da mentalidade dos primeiros cristãos, que tinham de se esconder nas catacumbas devido à perseguição pelo mundo romano pagão: uma mentalidade de cristianismo consciente que transforma o ser inteiro de alguém, o resguarda da mente do mundo, e o capacita a estar preparado para morrer por Cristo a qualquer momento. Nas palavras de São Macário, o Grande, que Pe. Serafim citava muitas vezes: “Os cristãos têm seu próprio mundo, seu próprio modo de vida, e mentalidade, e palavra, e atividade; muito diferente é o modo de vida, e mentalidade, e palavra, e atividade dos homens deste mundo. Uma coisa são os cristãos, e outra os amantes deste mundo; entre um e outro há uma grande separação”. Tendo provado a celestial doçura de estar com Cristo, o cristão sente o chamado a ser “não deste mundo”, a renunciar a seu eu caído, a entrar no que Nicetas Stithatos chamou o “deserto de paixões” – isto é, o desapaixonamento que lhe permite elevar-se acima dos cuidados terrenos.
Ao escrever sobre os habitantes de desertos das florestas russas, a “Tebaida Setentrional”, Pe. Serafim indicou que sua mentalidade do “deserto” devia ser compartilhada por todos que seguem Cristo, seja na selva ou no mundo. “E ainda a voz da Tebaida Setentrional nos chama”, ele escreveu, “– não, talvez, a irmos para o deserto (embora alguns poucos afortunados possam fazer até isso, pois as florestas ainda estão na terra de Deus) – mas ao menos a mantermos viva a fragrância do deserto em nossos corações: a habitarmos em mente e coração com esses homens e mulheres angélicos e tê-los como nossos mais verdadeiros amigos, conversando com eles em oração; a estarmos sempre afastados dos apegos e paixões desta vida, mesmo quando elas centram acerca de alguma instituição ou líder da organização da igreja; a sermos antes de tudo cidadãos da Jerusalém Celestial, a Cidade no alto, para a qual todos os nossos trabalhos cristãos são direcionados, e só secundariamente membros deste mundo debaixo, que perece. Aquele que uma vez sentiu essa fragrância do deserto, com sua regozijante liberdade em Cristo e sua sóbria constância na luta, nunca estará satisfeito com nada neste mundo, mas pode somente clamar com o Apóstolo e Teólogo: Vem, Senhor Jesus. Ainda mais, Certamente eu venho depressa (Apocalipse 22, 20)”.
Tal era a mensagem que os padres proclamavam em seus livros e revista, e foi somente natural que eles fossem pessoalmente chamados a ajudar cristãos a fazê-la real em suas vidas. Eles já tinham ajudado Vladimir Anderson a esse respeito. Enquanto continuava a manter a livraria ortodoxa em San Francisco aberta nos fins de semana, Vladimir estava conscienciosamente lutando para levar uma vida ortodoxa na pequena cidade de Willits. Tendo sido deixado órfão e em privação quando criança, ele tinha dedicado sua vida a ajudar pessoas em necessidade. Como em seus dias de “Trabalhador Católico”, ele e sua esposa Sylvia alimentavam, vestiam e davam abrigo aos sem lar. Desempregados errantes paravam na casa deles, ao lado da estrada, sabendo que lá eles sempre encontrariam uma boa refeição e um lugar para dormir. Vladimir até recebia famílias inteiras, se soubesse que elas precisavam de assistência.
À sua outra obra agradável a Deus, a família Anderson acrescentou o trabalho de publicar literatura ortodoxa. Tanto Vladimir quanto Sylvia eram amantes de livros, e passavam muitas horas procurando por velhos e obscuros livros em bibliotecas. Em sua busca, eles encontraram um surpreendente número de traduções para o inglês de clássicos espirituais ortodoxos, que tinham estado longamente esgotados e estavam agora em domínio público. Estando agudamente cientes da escassez de literatura ortodoxa que estivesse então disponível em inglês, eles queriam reimprimir esses títulos esgotados de forma que as pessoas pudessem fazer uso prático deles. Para esse fim, eles adquiriram uma impressora. Em 1970, Vladimir e seus filhos, sob o nome de “Livros Ortodoxos Orientais”, publicaram seus quatro primeiros livros. Em anos seguintes, eles publicariam mais de duzentos títulos, incluindo livros e panfletos. Pe. Serafim os aconselhava sobre quais materiais publicar.
Os padres de Platina também tinham sido chamados a ajudar outro sério buscador de Deus: Craig Young. Como Vladimir, Craig era um professor escolar de formação católica romana; como ele também, ele tinha ficado muito desiludido com as súbitas e arbitrárias mudanças que tinham ocorrido na Igreja Romana em seguida ao Vaticano II. Em 1966, tendo ficado sabendo da livraria da Irmandade em San Francisco por um amigo, ele tinha ido lá e falado com os futuros Padres Serafim e Germano. Como recordou muitos anos mais tarde: “Quando deixei a loja, eu pensei: isso é realmente alguma coisa! Essa pequena loja e esses dois homens diretamente saídos de um outro mundo – antiquado, intenso, real – e não particularmente interessados no mundo secular ao seu redor. Eu queria saber mais sobre o mundo deles”.
Pouco depois, Craig foi ao funeral do Arcebispo João. O ofício na Catedral, que acabou sendo a admirável glorificação de um Santo Ortodoxo, deixou uma profunda e indelével impressão nele. Ele tinha então apenas vinte e dois anos de idade, e um ano antes tinha se casado com uma católica romana da mesma idade.
Craig, em seguida, encontrou os padres de Platina na Catedral, em San Francisco, no Grande Sábado, em 1970, seis meses antes da sua tonsura monástica. Nessa época, Craig e sua esposa Susan, após muitas lutas, tinham finalmente decidido se converterem à Ortodoxia. Tendo freqüentado a Divina Liturgia à Catedral, eles se aproximaram do Arcebispo Antônio e o informaram da sua decisão. O Arcebispo então convocou os padres, que tinham vindo de seu ermitério para as celebrações Pascais, e pediu a eles que conversassem com o casal. Depois de questionar os Young detalhadamente para ver se estavam sérios em sua decisão, os padres disseram que iam informar ao Arcebispo acerca deles e conseguir sua bênção para eles serem recebidos na Igreja. Eles recomendaram que o casal se correspondesse com eles em seu ermitério de forma a prepararem-se para se tornarem ortodoxos. Em agosto daquele mesmo ano, Craig, Susan e seu filho de quatro anos, Ian, foram recebidos na Igreja Ortodoxa. Craig tomou o nome Alexei, após Santo Aleixo, o Homem de Deus.
Dois anos antes disso, em 1968, Alexei tinha se mudado com sua família para a pequena cidade de Etna (população 750), perto da fronteira Califórnia-Oregon. Não apenas não havia nenhuma paróquia ortodoxa na região, mas não havia cristãos ortodoxos por centenas de milhas. Ao se tornarem ortodoxos, os Young se perguntaram se deviam mudar de volta para a área da Baía de San Francisco, para ser parte da vida paroquial regular. Mas quando Alexei escreveu para os padres em Platina expressando essa preocupação, Pe. Serafim respondeu a ele: “Confie em Deus. Confie nas razões por que Ele o levou da cidade para o campo, em primeiro lugar”.
Alexei veio primeiro ao Ermitério de São Germano em setembro de 1970. Em cerca de metade do caminho de subida à montanha, ele tomou uma curva errada a teve o carro completamente atolado em lama profunda. Quando ele finalmente chegou ao ermitério a pé, Pe. Germano* disse a ele que ter ficado atolado era um bom sinal.
“Por quê?”, perguntou Alexei.
“Porque a ortodoxia é dura – você tem de lutar por ela”.
Os padres questionaram se Alexei podia perceber por que cristãos em sã consciência escolheriam viver em tão “impossíveis” condições, numa colina infestada por cascavéis, sem água, dentro de cabanas com telhados rachados? Como acabou acontecendo, Alexei foi atraído por sua vida de luta. Como ele mesmo recorda: “Os padres receberam-me o mais calorosamente, num largo cômodo que servia como sala de visitas, refeitório e capela temporária. Eles trouxeram água fria e fatias de melancia, ofereceram uma cadeira, e quase imediatamente começaram a falar sobre vidas de santos e santos anciões – como era sempre seu costume comigo ou com outros peregrinos. Não houve conversação secular de nenhum tipo, a não ser que tivesse a ver com as praticalidades de viver sozinho numa floresta selvagem. Foi tudo bastante notável, e extremamente inspirador. Mesma para um iniciante como eu, a atmosfera ultramundana do esquete era palpável. (...)
“Após poucas horas de conversa na minha primeira visita, Pe. Serafim anunciou que eles desceriam a montanha comigo até meu carro e veriam o que poderia ser feito para resgatá-lo da lama. Na caminhada, ele cantou hinos, tropários a vários santos, que suavemente ecoavam através da floresta e se mesclavam ao som dos pássaros. Quando chegamos ao carro, houve muito empurrão, e encontrão, e gemido, mas o carro não saiu do lugar. Finalmente tivemos que andar até a cidade e solicitar um guindaste. Enquanto esperávamos de volta ao carro, Pe. Serafim viu que eu estava frustrado e ansioso acerca do veículo. Subitamente, ele disse, acenando para as belas montanhas e florestas ao nosso redor: ‘Você vê toda essa beleza? E aquelas montanhas ali – elas têm estado aqui por tanto tempo, e parece que estarão aqui para sempre, não é? Mas isso não é verdade. Até aquelas montanhas vão, um dia, falecer’. Seu ponto era claro: por que ficar preocupado com o problema momentâneo de um carro atolado, que em qualquer caso logo será resolvido, quando mesmo as próprias montanhas substanciais vão um dia se dissolver? Essa foi a primeira de muitas vezes em que a própria tranqüilidade de coração do Pe. Serafim foi momentaneamente comunicada a mim. Eu me senti subitamente em paz, descansado, toda a agitação banida, como tão freqüentemente aconteceria em sua presença, pelos anos por vir”.
Em sua segunda visita, Alexei trouxe consigo sua esposa e seu filho. Enquanto tomava chá com os padres, contou a eles de sua insatisfação como professor escolar, como ele não gostava do que os professores modernos eram obrigados a instilar nas mentes das crianças. Os padres sentiram afetuoso interesse por essa boa e conscienciosa família. Quando ficaram sozinhos, Pe. Germano disse a Pe. Serafim: “Eu gosto dessas pessoas!”.
Logo Alexei chegou até os padres e disse-lhes que tinha de ir.
“Espere!”, exclamou Pe. Germano. “Vocês têm de venerar os ícones antes de ir. Entrem na igreja e me esperem lá”.
Quando Alexei e sua família tinham feito isso, Pe. Germano novamente se voltou para Pe. Serafim. “O que direi a eles?”, perguntou.
“Seja você mesmo”, replicou Pe. Serafim. “Diga a eles o que você sente”.
Pe. Germano fez o sinal da cruz e entrou na igreja. Ele cantou “Alegria de Todos os que Sofrem”, o hino da Catedral do Arcebispo João, e foi acompanhado por Alexei e sua família, que o tinham aprendido por uma fita de áudio do funeral do Arcebispo.
Enquanto olhava para seus visitantes e ponderava por onde começar, Pe. Germano pensou na imagem do Pe. Adriano de Novo Diveyevo. Ele começou a falar com a família sobre esse incrível sacerdote casado, contando como, em todo lugar aonde as circunstâncias históricas o tinham dirigido – Kiev, Berlim, Wendlingen, o estado de Nova York – uma comunidade intimamente unida de leigos ortodoxos tinha se formado ao seu redor. Mesmo em meio a grandes provações sofridas na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, Pe. Adriano tinha sido capaz de recapturar a quietude perdida da sua infância ortodoxa, de criar as condições e adquirir o estado de alma pelo qual ele e seu povo podiam viver a vida cristã na integridade da sua graça. Sua comunidade presente no alto estado de Nova York, Pe. Germano disse, estava prosperando espiritualmente porque ele instilava nas pessoas uma consciente filosofia de vida ortodoxa. Embora em meio ao mundo, ele e seu rebanho não pertenciam ao mundo, formando uma ilha de ortodoxia.
Pe. Germano apontou que a batida do coração da comunidade de Pe. Adriano era a performance de ofícios diários, e ele encorajou Alexei e Susan a fazerem o mesmo. Ele deu a eles um modelo específico a seguir: dos oito ofícios do ciclo diário, ele disse, eles deveriam ao menos rezar o ofício da Nona Hora (pré-anoitecer) todo dia, sem falta.
Tendo recebido a mensagem de Pe. Germano sobre comunidades leigas cristãs, Alexei ficou profundamente comovido. “Isso é tudo de que eu precisava”, ele disse. “Agora eu tenho uma imagem pela qual viver”.
Retornando ao seu lar em Etna, Alexei cultivou o “deserto” em seu quintal. Toda noitinha ele e sua família entravam numa pequena capela, dedicada aos Santos Adriano e Natália**, que eles tinham instalado na casa da bomba atrás da sua casa. Lá, eles liam e cantavam a Nona Hora, à qual eles depois acrescentaram o ofício da Véspera (à noitinha).
Tendo um grau em jornalismo e um talento para escrever, Alexei também começou a escrever um pouco sobre sua nova vida como um cristão ortodoxo. No verão de 1971, ele enviou aos padres um curto artigo que tinha composto, sentindo-se algo inseguro a essa primeira tentativa e pedindo sua opinião.
Em resposta, Pe. Serafim escreveu: “Absolutamente não é ‘vão e presunçoso’ para você escrever um tal artigo, pois no mínimo isso ajuda você a clarificar e desenvolver suas próprias idéias e sentimentos. (...) Eu posso até pensar num bom lugar onde ele pode ser adequadamente publicado: num jornal chamado América Ortodoxa, que, além de dar notícias ortodoxas, esclarecimento, e o apropriado ponto de vista ortodoxo sobre assuntos contemporâneos, tem uma seção onde convertidos ortodoxos e todos os filhos da diáspora da ‘América ortodoxa’ em geral compartilham algumas de suas idéias, percepções, esperanças, etc. Infelizmente, esse jornal não existe! Talvez exista um dia”.
Pe. Serafim tinha recebido a idéia de América Ortodoxa – uma versão americana do jornal Pravoslavnaya Rus’ (Rússia Ortodoxa) – de Pe. Germano, que por sua vez a tinha obtido do seu amigo do seminário, Pe. Alexei Poluektov. Pouco suspeitava Pe. Serafim que sua breve menção disso a Alexei Young evocaria uma onda de resposta entusiástica. Em sua carta de resposta, Alexei contou aos padres do seu próprio plano para um periódico ortodoxo mais modesto que era diferente o bastante para requerer seu próprio título e formato.
Pe. Serafim lhe deu encorajamento nisso, falando da necessidade de mais material ortodoxo em inglês. “Mas antes que uma única linha seja impressa”, ele escreveu, “a coisa toda devia ser inteiramente examinada – e provavelmente também sofrida! (...) Em nossa experiência, a única coisa mais importante para tal periódico é ter sua própria distinta ‘personalidade’, sua idéia guiadora definida junto com o modo como essa idéia é expressa. Essa personalidade é vista não meramente no conteúdo, formato e política editorial, mas também no estilo e na revelação de quem está por trás dele (não alguém pessoalmente, mas que tipo de pessoa: erudito? Pregador? Instrutor? A voz de uma ‘jurisdição’? Um convertido falando para e por e com outros convertidos? Etc.) e para quem é direcionado (uma audiência instruída? Popular ou semipopular? Convertidos? Etc.). Tudo isso não é muito fácil de definir, mas tem de ser ao menos sentido se o periódico de fato for ter sua própria personalidade e não ser meramente uma coleção miscelânea de materiais.
“Pe. Germano e eu ficaríamos felizes de ser seus ‘conselheiros’ (nessa esfera, nossas duas cabeças são definitivamente melhores que uma!) nisso, mas essa função é limitada a conselho geral, mais quaisquer comentários específicos sobre conteúdo. A carga ‘criativa’ – especificamente, a criação de uma personalidade, e desta não como uma coisa artificial, mas como surgindo de um desejo definido de encontrar uma necessidade definida – repousará direto sobre você e seus colaboradores. (...) Se você quiser saber a quem consultar, devia consultar pessoas justamente como você e lançar um periódico de e para convertidos. (...)
“Reflita, consulte, ore. Ore ao Vladika João. Não existiria nenhuma Palavra Ortodoxa hoje sem ele”.
Alexei queria chamar seu novo periódico Nicodemos, pelo Santo a quem Cristo disse: “A não ser que um homem nasça novamente (...)”. Publicado trimestralmente, ele teria um formato simples, caseiro, e focaria nas necessidades de leigos e convertidos ortodoxos “renascidos”.
Pe. Serafim escreveu ao Arcebispo Antônio sobre o periódico proposto – para, como ele disse, “derrubar de algum jeito a barreira lingüística e psicológica entre convertidos e bispos”. Quando Alexei estava planejando uma viagem a San Francisco para pedir a bênção do Arcebispo sobre o novo empreendimento, Pe. Serafim aconselhou-o: “Antes de ver o Arcebispo, por todo meio vá ao Vladika João primeiro, implore sua ajuda, e lá mesmo em seu túmulo peça a ele, se o que você está empreendendo for agradável a Deus, que o abençoe. Se Vladika João abençoar, isso vai ser feito, não importando quais dificuldades venham!”. Alexei seguiu esse conselho, e, como lembrou mais tarde, “Arcebispo Antônio generosamente e até entusiasticamente deu sua bênção a nosso novo projeto. (...) Ele apontou os Padres Serafim e Germano para serem meus ‘guias’, como ele colocou”.
Alexei enviou um modelo do primeiro exemplar para os padres revisarem, e Pe. Serafim enviou-lhe de volta uma detalhada carta com sugestões. Incorporando as sugestões de Pe. Serafim, Alexei enviou o primeiro exemplar para a lista de endereços dos assinantes de Palavra Ortodoxa, que os padres tinham compartilhado com ele de forma a ajudar a começar o novo periódico.
Quando ele recebeu o primeiro exemplar pelo correio, Pe. Serafim ficou encantado. “Uma semente germinou”, ele escreveu em sua crônica, “plantada pela vida do Vladika João e de algum pequeno modo regada pela nossa Irmandade. O primeiro exemplar é modesto – mas claramente se sente que a fé está viva e ardendo. E que alegria para nós ver que alguém não apenas se importa, mas tem a coragem de fazer algo! Possa Deus prosperar esse bom começo”.
Nos anos por vir, Pe. Serafim deu a Alexei muita assistência, traduzindo textos ortodoxos, revisando artigos, e mantendo uma volumosa correspondência na qual ele se esforçou em guiar Alexei numa sóbria consciência ortodoxa.
Com o trabalho missionário e publicador de Alexei e Vladimir, os padres contemplaram o fruto de atividade agradável a Deus entre convertidos ortodoxos. Eles rejubilaram, mas ao mesmo tempo entenderam que eles tinham que continuar a nutrir esses humildes esforços. Em sua crônica, Pe. Serafim escreveu: “Hoje em dia poucos convertidos têm o necessário guiamento que vai impedi-los de se desencaminharem e finalmente ‘extinguirem’. Mesmo umas poucas palavras podem fazer muito para dar a eles um senso de pertencer, e encorajamento. Graças a Deus por Alexei Young e Vladimir Anderson, que têm a centelha e estão trabalhando bem – melhor que todos os comitês do mundo! Deus conceda-nos oferecer qual conselho e encorajamento pudermos para eles e outros”.
No meio tempo, os ofícios que a família de Alexei celebrava diariamente em sua pequena capela da casa da bomba não tinham passado despercebidos. Um dia uma senhora vizinha se aproximou deles e disse: “Perdoem-me – desculpem minha intrusão. Todo dia, enquanto eu lavo as louças, eu vejo vocês se apressarem para a casa da bomba. E quando vocês saem, mais ou menos meia hora depois, vocês estão diferentes, parecem tão calmos e pacíficos. O que vocês fazem lá dentro?”.
A resposta seguiu: “Venha e veja!”.
Logo essa mulher e sua filha – ex-pentecostais – se juntaram aos Young em seus ofícios. Quando a esposa de um dos colegas de Alexei da escola ficou sabendo da comunidade ortodoxa, ela também quis tomar parte em sua vida de oração diária. Em tempo, essas pessoas foram convertidas à Fé Ortodoxa, e outras seguiram mais tarde. “A palavra da ortodoxia”, notou Pe. Serafim após alguns deles terem visitado o ermitério, “tem acesso aos corações americanos – poucos, e quão cuidadosamente devem ser nutridos!”.
Em janeiro de 1974, Padres Serafim e Germano fizeram sua primeira visita à casa e à capela de Alexei em Etna. Eles celebraram um ofício na capela – a qual nesse tempo tinha sido pintada e rearrumada – junto com os Young e as duas outras famílias convertidas ortodoxas que então formavam a pequena comunidade. “Os padres cantaram conosco o Acatisto ao Senhor Jesus Cristo”, Alexei lembra, “ensinando-nos a bela melodia russa. Eles cantaram com tanto fervor e compunção que, muito embora estivéssemos em arredores bastante humildes, ‘não sabíamos se estávamos no céu ou na terra’, como os emissários do Grão-Duque Vladimir tinham reportado mil anos atrás, após atenderem a ofícios ortodoxos pela primeira vez”.
Voltando para casa da sua visita a Etna, Pe. Serafim escreveu que “o broto da ortodoxia está crescendo bem lá”. Noutro lugar, ele notou que a comunidade “até agora parece estar desenvolvendo diretamente para preservar uma ilha de ortodoxia”.
Essa nova ramificação da Irmandade estimulou os padres a contemplar os princípios de comunidades ortodoxas leigas, especialmente como vividas em condições modernas. Num artigo para A Palavra Ortodoxa, Pe. Serafim extraiu dos ensinamentos e exemplos de Pe. Adriano (então Arcebispo André) para divulgar esses princípios. “A essência da verdadeira vida ortodoxa”, ele escreveu, “é divindade ou piedade (blagochestiye), que é, na definição do Ancião Nectário***, baseada na etimologia da palavra, ‘manter o que é de Deus em honra’. Isso é mais profundo que mera reta doutrina; é a entrada de Deus em todo aspecto da vida, vida vivida no tremor e temor de Deus. (...) Tal atitude produz o modo de vida (byt) ortodoxo que não é meramente os costumes e comportamento externos que caracterizam cristãos ortodoxos, mas o todo da cônscia luta espiritual do homem para quem a Igreja e suas leis são o centro de tudo o que ele faz e pensa. A experiência consciente, compartilhada, desse modo de vida, centrada nos ofícios divinos diários, produz a genuína comunidade ortodoxa, com seus sentimentos de leveza, alegria e quietude interior. Pessoas não-ortodoxas, e até muitos cristãos ortodoxos não completamente conscientes, mal podem imaginar o que essa experiência de comunidade possa ser, e seriam inclinadas a descartá-la como algo ‘subjetivo’; mas ninguém que tenha participado de todo o coração na vida de uma verdadeira comunidade ortodoxa, monástica ou leiga, jamais duvidará da realidade desse sentimento ortodoxo”.
Logo após publicar isso, foram mostradas aos padres cartas que um ortodoxo da Grécia tinha escrito para Alexei sobre o assunto de comunidades ortodoxas. “Nós as achamos muito interessantes”, escreveu Pe. Serafim a esse homem. “Nós mesmos dedicamos muitos pensamentos a essa questão, e o novo exemplar de A Palavra Ortodoxa tem um pouco de nossas idéias sobre isso. (...) Mas não é possível se expressar completamente sobre esse assunto por impresso, porque as pessoas ortodoxas são simplesmente muito imaturas – a idéia de uma ‘comunidade ortodoxa’ é muito atraente, mas quase ninguém está consciente ou preparado para as dificuldades e sacrifício envolvidos em trazê-la à realidade, e o resultado é apenas experimentos desesperançados e desilusão. (...)
“Mas ainda, se se aprende a ser realista e não se espera de uma comunidade leiga tanto quanto de uma comunidade monástica, essa também é uma possibilidade para nossos dias – e, na verdade, uma muito importante. A vida numa paróquia ortodoxa ordinária hoje, na atmosfera anormal de cidade grande e rodeada por tentações nunca ouvidas antes – não é normal para a ortodoxia. Nós conhecemos um sacerdote muito zeloso em Nova Jersey, com um rebanho muito grande e muitos jovens. Mas ele nos diz que está lutando uma batalha perdida. Ele tem os jovens na igreja por poucas horas no domingo, e talvez na noite de sábado, e por uma hora ou duas de escola de igreja no sábado – e, no resto inteiro da semana, eles estão sujeitos às influências contrárias das escolas públicas, televisão, etc. O desejo de ter uma atmosfera onde a Igreja pode ter mais parte na vida e mais influência nas crianças – é um desejo ortodoxo muito natural, e não algo ‘exótico’, ou um sinal de ‘prelest’****, como muitos parecem pensar”.
Os membros da comunidade de Etna iam a San Francisco uma vez por mês para receber a Santa Comunhão. Mas suas “injeções espirituais diárias” vinham de ler textos espirituais e freqüentar os ofícios na capela. O mais aparente sinal exterior de uma comunidade ortodoxa, Pe. Serafim escreveu, “parece ser os ofícios divinos (mesmo se apenas um mínimo deles), seja com um sacerdote ou sem – mas diários, esse sendo o ponto ao redor do qual tudo o mais revolve”.
Numa série de artigos que escreveu sobre o Típico de ofícios da Igreja, Pe. Serafim tentou dissipar o que chamou “o popular mal entendido de que cristãos ortodoxos não são permitidos a celebrar ofícios da Igreja sem um sacerdote, e que, portanto, os fiéis ficam bastante desamparados e estão virtualmente ‘incapazes de orar’ quando se encontram sem um padre – como acontece mais e mais freqüentemente hoje em dia”. Após citar um apelo do Arcebispo Abércio para cristãos ortodoxos se juntarem em oração pública mesmo onde não haja padre, Pe. Serafim concluiu: “Essa prática pode e deveria ser grandemente intensificada entre os fiéis, seja a questão de uma paróquia que perdeu seu sacerdote ou é muito pequena para sustentar um, de um pequeno grupo de crentes distantes da igreja mais próxima, os quais ainda não formaram uma paróquia, ou uma única família que esteja incapaz de freqüentar a igreja todo domingo e dia festivo”.
Quando Alexei começou a questionar sobre o significado das suas crescentes preocupações pastorais, Pe. Serafim lhe escreveu esta amável palavra de encorajamento: “Não se preocupe com as responsabilidades aumentadas e novas almas que vêm no seu caminho; Deus não enviará a você mais fardos do que pode carregar, e o que podemos nós, pobres cristãos, fazer, se não ajudarmos ao menos poucos daqueles que estão sedentos pela verdade? Trabalhemos um pouco pelos outros, que freqüentemente não têm nenhum outro lugar para onde se voltar nesta terra abandonada da vida moderna, e aguardemos o repouso da próxima vida, quando a colheita espiritual estará disponível e segura contra o dano! E mesmo em todas as nossas provações e pesares – para os quais constantemente esteja preparado! – que alegria nosso amoroso Deus envia a nós, imerecedores!”.
Pe. Serafim via esperança para a pequena comunidade nas dificuldades pessoais que seus membros tinham, por diferentes razões, encarado em suas vidas. “Todos os adultos na comunidade”, ele escreveu em sua crônica, “sofreram muito. (...) Esse é um bom sinal para a permanência firme deles na ortodoxia”. Com isso em mente, ele uma vez deu uma palestra em Etna sobre o ensinamento patrístico da dor de coração, sobre aprender a aceitar provações e pesares como precisamente o caminho para a salvação. Seu sofrimento, ele disse a eles, era a visita de Deus a eles.
Quando Alexei começou a ampliar a capela em sua propriedade, Pe. Serafim o alertou para não ficar muito ansioso para tê-la proclamada como paróquia. “Estamos alegres de ouvir do progresso na capela”, ele escreveu a Alexei. “Não se preocupe com Vladika Antônio. Ele tem de saber, é claro, quando vocês estiverem preparados para abrir uma ‘igreja’, e se ele for informado agora, ele vai assumir que vocês estão, de fato, abrindo uma ‘igreja’ – e isso será uma armadilha, porque vocês não estão preparados para isso ainda. Apenas não comecem a chamar seu galpão melhorado de ‘igreja’ ou comecem a fazer grandes planos. Vocês são apenas um grupo muito pequeno de cristãos ortodoxos distantes do centro das coisas, não uma ‘paróquia’, isto é, algo ‘oficialmente registrado’ na ‘Diocese’”.
Anos após a morte de Pe. Serafim, Alexei recordou: “Mais de uma vez, Pe. Serafim escreveu ou disse: ‘Não aprenda russo. Se você souber russo, você vai ouvir toda a fofoca e ficar tentado a participar dela. E não faça parte de um conselho paroquial em lugar algum. Evite política paroquial como a praga!’. É claro que minha família e eu éramos encorajados a freqüentar a Liturgia em várias paróquias e receber os Santos Mistérios, mas éramos desencorajados de participar em outras atividades paroquiais, que ele sentia que me desencaminhariam do ‘chamado’ que ele acreditava que me tinha sido enviado por Deus – isto é, trabalho missionário através de escrita, ensino, publicação. Como resultado, muitos leigos russos se referiam a mim como um ‘Velho Crente’!”.
Em sua carta ao correspondente de Alexei na Grécia, Pe. Serafim explicou a necessidade de comunidades como a de Alexei escaparem da influência de mundanidade: “Nas condições de nossos dias presentes, deve haver um esforço consciente de fugir de envolvimento no mundo – assim, cidades pequenas em preferência a grandes cidades, liberdade (tanto quanto possível) de televisão, jornais, telefone, etc. E algo mais: deve haver uma fuga do espírito mundano na própria Igreja; isso significa fugir até da vida paroquial comum, se possível, pois esta se tornou muito mundana hoje em dia.
“A comunidade de Etna não é de jeito nenhum uma comunidade altamente ‘idealística’ ou ‘experimental’; é antes um crescimento natural a partir de condições especiais que são excepcionalmente favoráveis à autopreservação ortodoxa – dado, é claro, que os básicos zelo e fervor ortodoxos estejam presentes, para começar. A maior bênção para essa comunidade é, bastante paradoxalmente, que eles estão longe de uma paróquia ortodoxa – isso forçou-os a sair da rotina de tantos ortodoxos hoje que tomam por garantido tudo acerca da Igreja e assumem que alguém está ‘a cargo’ da Igreja e de seus ofícios, etc. Essas pessoas foram forçadas a fazer os ofícios elas mesmas, e então os ofícios são muito mais queridos a elas; e as dificuldades pelas quais têm de passar para chegar a um padre e receber a Santa Comunhão são tão grandes que elas estimam com apreço esse privilégio e estão literalmente trabalhando por sua salvação com temor e tremor. É claro, nós americanos também somos abençoados porque tudo na ortodoxia é novo para nós e, portanto, precioso – toda nova tradução de uma vida de santo ou ofício é uma nova descoberta para nós, ainda mais se pudermos participar nisso nós mesmos”.
Numa carta a Alexei, Pe. Serafim escreveu: “Você devia dar grandes graças a Deus por ter uma tal oportunidade de viver remotamente e independentemente, onde a ortodoxia pode realmente entrar na sua vida diária”. E numa outra carta, comentando sobre Nicodemos: “Nós rejubilamos em ver a semente de ortodoxia genuína criando raízes e dando brotos, abrindo uma ‘dimensão’ da vida ortodoxa que não tem sido muito vista ainda na América: ortodoxia leiga que não é ‘mundana’, que busca por raízes mais profundas e sente que não pode ‘se adequar’ ao mundo; que não está satisfeita de ser como todo mundo, apenas com um ‘ponto de vista ortodoxo’ sobre tudo; que procura pelos Padres por respostas, não para questões acadêmicas ou teologia, mas para como viver. Há um relance aqui de uma ortodoxia não meramente ‘adicionada’ ao modo de vida americano, e então justificada e feita compreensível para não-ortodoxos, ‘se adequando’ como uma quarta fé principal – mas algo que antes transforma a vida, faz as pessoas ortodoxas algo como um escândalo para o mundo, que cresce sobre seus próprios princípios bem longe do mundo ao seu redor, e, porém, que é bastante sólida e normal nela mesma”.
Ao mesmo tempo, porém, Pe. Serafim percebia quão frágeis tais preciosas comunidadezinhas são, quão poderosamente o demônio tenta enfraquecê-las e destruí-las. “Sem uma constante e consciente luta espiritual”, ele escreveu, “até a melhor vida ou comunidade ortodoxa pode se tornar uma ‘estufa’, uma atmosfera ortodoxa artificial na qual as manifestações exteriores da vida ortodoxa são meramente ‘aproveitadas’ ou tomadas por garantidas, enquanto a alma permanece imudada, estando relaxada e confortável, em vez de tensa na luta por salvação. Quão freqüentemente uma comunidade, quando se torna próspera e conhecida, perde o precioso fervor e unidade de alma dos seus primeiros dias de duras lutas! Não há ‘fórmula’ para a vida ortodoxa verdadeiramente agradável a Deus; qualquer coisa exterior pode se tornar uma falsificação; tudo depende do estado da alma, que deve estar tremendo perante Deus, tendo a lei de Deus perante si em toda área da vida, a todo momento guardando o que é de Deus em honra, em primeiro lugar na vida”.
A oração fervorosa de Pe. Serafim pelas pessoas da comunidade de Etna foi que elas permanecessem como eram: com temor de Deus e amor uns pelos outros, valorizando seus “elos vivos”, como o Bispo Nectário. Tendo voltado de uma visita lá em setembro de 1975, ele escreveu em sua crônica: “A comunidade, embora pequena e fraca, está lutando para viver no verdadeiro espírito de piedade ortodoxa, e talvez agora seja o melhor tempo para isso – antes que ela tenha ficado muito grande para perder a essencial unidade de mente e alma ou tomar a ortodoxia por garantida. A comunidade foi muito inspirada pela visita do Bispo Nectário, cedo na semana, e Pe. Serafim deu uma palestra após as Vésperas (na capela aumentada) sobre guardar com estima o contato com a tradição ortodoxa através do Vladika Nectário e mesmo através da recentemente instalada tela de ícones que vem da Igreja da Mãe de Deus de Kazan em Sacramento, e foi construída por Alexei Makushinsky, que foi um membro da Igreja na Catacumba na Rússia, que cantou no coro de São João de Kronstadt, e foi curado em Moscou pelas relíquias de São Basílio, o Abençoado. (...) Possa Deus preservá-los todos em unidade de mente e alma!”.
O próximo estágio para a comunidade estava em ter um padre em seu meio – mas isso viria apenas no tempo apontado pela Providência de Deus. No meio tempo, a comunidade estava construindo uma fundação espiritual sólida de oração comum diária: uma fundação que pode servir hoje como um modelo para outros que estejam buscando uma quieta ilha de cristianismo ultramundano em meio ao tumultuoso mar da nossa sociedade materialista, pós-cristã.
* Os padres Germano e Serafim, na verdade, ainda eram chamados Gleb e Eugene, nessa época. Sua tonsura ocorreu um mês após a primeira visita de Alexei ao ermitério.
** Um casal de marido e mulher, martirizado por Cristo na Nicomédia no quarto século.
*** Ancião Nectário de Optina, pai espiritual de Pe. Adriano.
**** Prelest: ilusão espiritual.